O Conformista

‘’Todos gostariam de ser diferentes mas você, ao contrário, quer ser igual a todo mundo’’ diz um personagem a Marcelo (Jean-Louis Trintignant) em certo momento deste belo filme de Bernardo Bertolucci, ‘’O Conformista’’.

Marcelo, nosso protagonista, está em uma missão para Mussolini: localizar um antigo professor seu que se escondeu na França devido a ascenção do movimento fascista e matá-lo. Está para se casar com uma jovem boba e fútil, Giulia (Stefania Sandrelli). Giulia representa a normalidade que Marcelo aspira durante toda a película, procurando se encaixar no sistema, ajudar o governo, casar, ter uma vida normal, virar um conformista.

Imagino o furor que este filme deve ter causado na época em que estreiou. Contado de maneira não linear, quase que no fluxo da memória do protagonista, ‘’O Conformista’’ é dono de algumas das mais bonitas cenas da história do cinema. Fotografado pelo genial Vittorio Storaro, o filme de Bertolucci é permeado de imagens inesquecíveis. A dança dos cegos; o assassinato na floresta; as flores esvoaçantes no jardim… O trabalho de Storaro é um marco, e não demorou muito para que Hollywood reconhecesse seu talento e Francis Ford Coppola lhe chamasse para cuidar da fotografia de outra obra-prima do cinema, ‘’Apocalypse Now’’.

Bertolucci, então com apenas 29 anos, também obteve fama internacional com ‘’O Conformista’’. Seu filme ganhou prêmios em Berlin e foi indicado ao Oscar na categoria de melhor roteiro adaptado. O diretor certamente possui outros bons trabalhos, mas nenhum chega tão perto da perfeição como ‘’O Conformista’’. O curioso é que quando o cineasta propôs a adaptação do livro do escritor Alberto Moravia a Paramount, ele próprio não havia lido a história; o projeto foi aproveado e  um mês depois ele começou a produzir o roteiro. Bertolucci colocou toques seus na história. O alvo de Marcelo, o professor Quadri (vivido por Enzo Tarascio), é claramente inspirado em Jean-Luc Godard, um dos ídolos do diretor italiano; quando Marcelo pede para a operadora ligar para o professor, o telefone que lhe é dado é de um antigo número de Godard; o protagonista recorda-se que em uma aula Quadri disse ‘’O tempo para refletir acabou. Agora é o tempo de agir’’. Essas são as primeiras falas de ‘’O Pequeno Soldado’’  filme dirigido por Godard.

Para o papel de Marcelo Clerici, o conformista do título, o cineasta escolheu o francês Jean-Louis Trintignant, que alguns anos antes havia feito o excelente ‘’Z’’, de Costa-Gavras. Trintignant é um dos poucos atores que fala sem precisar dizer uma palavra; sua cara faz um papel muito melhor do que a sua boca em expressar emoções e sentimentos. Há claras insinuações durante o filme de que seu personagem, vítima de abuso sexual quando criança, seja homossexual, o que me parece uma interpretação muito correta. Perceba o modo como Marcelo senta, ou de como fica envergonhando quando a empregada passa na sala bem no momento em que sua noiva o agarra. Engraçado que quando Giulia dança um tango altamente sensual com a mulher do professor, Anna (Dominique Sanda), ele, assim como o resto do restaurante em que a cena ocorre, fica escandalizado, enquanto que Quadri aceita a cena e apenas comenta como as duas estão bonitas.

Marcelo e seu antigo mentor discutem no escritório desse último o mito da caverna de Platão. O mito diz que, numa caverna, existem prisioneiros acorrentados que vêem apenas as sombras de figuras sendo projetadas em uma fogueira. ‘’E como somos parecidos com eles’’, filosofa Marcelo. O professor abre uma janela, a sombra de Marcelo desaparece. A sombra de Marcelo desaparece.

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