Onde Os Fracos Não Tem Vez

Os irmãos Coen integram esse seleto grupo de cineastas autorais. Seus filmes são peças únicas, frequentemente compartilham do mesmo tema, utilizam atores que conhecidos e tem aquele humor negro muito peculiar. São poucas as pessoas que conseguem transformar aquela tensa briga no quintal em ”Gosto de Sangue” em uma coisa engraçada. Os irmãos Coen conseguem.

”Onde Os Fracos Não Tem Vez” é um dos pontos altos da filmografia da dupla. Adaptação do romance de Cormac McCarthy, o filme é uma pedrada. É o tipo de cinema que revela novos detalhes a cada revisão. E que prazer que é rever esse filme.

Aviso logo que os parágrafos a seguir vão conter spoilers, então quem não viu deixe para ler depois.

A fantástica narração que abre o filme já dá algumas dicas sobre o que os irmãos estão querendo mostrar. Nela, Tommy Lee Jones conta sobre como o senso do que é certo e errado mudou e de como as pessoas faziam as coisas antigamente. O personagem de Jones, o xerife Ed Tom Bell, está completamente deslocado. É um cowboy moderno, rodeado por idiotas (perceba a falta de paciência que o personagem tem com seu assistente), e com um senso de justiça antiquado.

Do outro lado temos Anton Chigurh, em interpretação forte de Javier Bardem. Chigurh não é muito diferente de Tom Bell. Ambos possuem um código moral forte, e vivem sua vida de acordo com ele. A diferença é que Chigurh é um assassino que está à procura de uma maleta cheia de dinheiro.

Essa maleta está nas mãos de Llewelyn Moss, personagem de Josh Brolin, que a encontra por acidente enquanto está caçando veados no deserto. Moss está perdido, é um veterano do Vietnã que não encontrou paz em sua vida pós guerra e vive num trailer vagabundo com uma mulher que não entende suas atitudes.

Aquela famosa cena da moeda no posto de gasolina mostra muito bem do que os irmãos são capazes na direção. Nenhum tiro é trocado, nenhum palavrão é falado, mas a cena é extremamente tensa por que já vimos do que o personagem que participa dela (Chigurh) é capaz. Não muito antes o vimos matar um homem apenas para pegar seu carro, e depois matar um policial estrangulando-o com suas algemas. Chigurh é uma máquina de matar, uma força da natureza, e uma cena em que aparentemente nada acontece logo se torna uma das mais tensas do filme simplesmente por que o personagem faz parte dela.

Não existe nenhum grande segredo para desvendar ”Onde Os Fracos Não Tem Vez”. Muitos reclamam do final abrupto, da falta de resoluções, mas tudo fica muito mais fácil quando você percebe que não se trata de uma caçada por dinheiro. É sobre a sociedade atual, de como ninguém mais se respeita e de como a violência tomou conta de tudo. O título original ”No Country for Old Men” (algo como ”Não é um país para velhos) já simboliza bem isso. Aqueles personagens estão fora de seu tempo, não pertencem aquela época, e se sentem esmagados por ela. Estão apenas esperando sua hora chegar. Enquanto isso o relógio segue fazendo tic-toc, os sonhos continuam vindo e não há nada que se possa fazer sobre isso.

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